Max Lucado
Thomas Nelson Brasil
Rio de Janeiro 2007
Quando estamos magoados, às vezes encontramos a cura falando sobre
essa mágoa – com um amigo, com um conselheiro, com Deus. Mas, por
fim, chega o momento de parar de falar e começar a ouvir.
Há vezes em que falar é violar o momento...Nesses caso, o silêncio
representa o maior respeito. O termo que mais bem define instantes
como esses é reverência.
Essa foi uma lição que Jó, - o homem n Bíblia mais tocado pela
tragédia e pelo desespero – aprendeu. Se Jó tinha um defeito, seu
defeito era a língua. Ele falava demais.
Não que alguém pudesse culpá-lo; a calamidade lançou-se sobre o
homem como uma leoa sobre um bando de gazelas, e, quando o alvoroço
passou, mal havia restado uma parede em pé ou um ente querido com
vida. Os inimigos mataram o gado de Jó, e relâmpagos destruíram
suas ovelhas. Ventos fortes deixaram sob os escombros seus filhos que
faziam festa.
Jó sabia como era perder aqueles a quem amava quando a casa veio
abaixo.
Jó sabia nem teve tempo de enterrar seus filhos antes de ver a lepra
em suas mãos e as terríveis feridas em sua pele. Sua esposa, ainda
que muito compassiva, lhe disse: “Amaldiçoe a Deus, e morra”.
Seus quatro amigos se aproximaram de seu leito como sargentos
instrutores, dizendo-lhes que Deus é justo e que a dor é
consequência do pecado, e que, tão certo quanto dois mais dois são
quatro, Jó devia ter algum antecedente criminal em seu passado para
sofrer assim.
Cada um tinha sua própria interpretação de Deus, e cada um falava
em alto e bom som sobre quem é Deus e por que Deus fizera aquilo
tudo. Eles não foram os únicos a falar sobre Deus. Quando os
acusadores de Jó pararam, Jó deu sua resposta. De um lado para o
outro eles andavam...
Jó abriu a boca...(3.1)
Então respondeu Elifaz, de Temã (4.1)
Então Jó respondeu...(6.1)
Então Bildade, de Suá, respondeu...(8.1)
Então Jó respondeu...(9.1)
Então Zofar, de Naamate, respondeu...(11.1)
Este pingue-pongue verbal se estende por 23 capítulos. Por fim, Jó
fica cheio dessas “respostas”. Chega de conversa fiada em grupo!
É hora de fazer um discurso importante. Ele segura o microfone com
uma mão e o púlpito com a outra, e começa. Por seis capítulo, Jó
dá suas opiniões sobre Deus. Desta vez, o capítulo começa com: “E
Jó prosseguiu”, “E Jó prosseguiu”, “E Jó prosseguiu”.
Ele define Deus, explica Deus e examina Deus. Tem-se impressão de
que Jó sabe mais sobre Deus do que o próprio Deus!
Chegamos ao capítulo 37 do livro antes de Deus limpar a garganta
para falar. O capitulo 38 começa com estas palavras: “Então o
SENHOR respondeu a Jó”.
ENTÃO O SENHOR RESPONDEU A JÓ!
Deus fala. Rostos se voltam para o céu. Ventos inclinam as árvores.
Os vizinhos se lançam nos abrigos para tempestades. Gatos sobem
correndo nas árvores e cachorros se enfiam no meio das moitas. “Está
ventando, querido. Melhor tirar os lençóis do varal. “Deus não
precisou abrir mais a sua boca para que Jó soubesse que deveria
manter a sua fechada.
Vou fazer-lhe perguntas,
e você me responderá.
“Onde você estava quando lancei os alicerces da terra?
Responda-me, se é que você sabe tanto.
Quem marcou os limites das suas dimensões?
Talvez você saiba!
E quem estendeu sobre ela a linha de medir?
E os seus fundamentos, sobre o que foram postos?
E quem colocou sua pedra de esquina,
enquanto as estrelas matutinas juntas cantavam
e todos os anjos se regozijavam?”
(8.3-7)
Deus inunda o céu de perguntas e Jó não pode deixar de fazer outra
coisa senão entende: somente Deus define Deus. Você precisa
conhecer o alfabeto antes de poder ler; e Deus diz para Jó: “Você
nem conhece o ABC do céu, muito menos todo o vocabulário”. Pela
primeira vez, Jó fica quieto. Silenciado pela enxurrada de
perguntas.
Você já foi até as nascentes do mar,
já passeou pelas obscuras profundezas do abismo?
Acaso você entrou nos reservatórios de neve,
já viu os depósitos de saraiva?
É você que dá força ao cavalo
ou veste o seu pescoço com sua crina tremulante?
Você o faz saltar como gafanhoto?
É graças à inteligência que você tem que o falcão alça voo
e estende as asas rumo ao sul?
(38.16, 22; 39.19; 20, 26).
Jó mal tem tempo para balançar a cabeça em resposta a uma pergunta
antes de outra lhe ser feita. A implicação do Pai é clara: “Assim
que você for capaz de lidar com estas simples questões relacionadas
a armazenar estrelas e esticar o pescoço do avestruz, teremos uma
conversa sobre dor e sofrimento. Mas, até lá, não precisamos de
seus comentários”.
Jó entendeu a mensagem,? Acho que sim. Ouça a resposta de Jó:
Sou indigno; como posso responder-te? Ponho a mão sobre a minha
boca.
(40:4)
Observe a mudança. Antes de ouvir Deus, Jó não conseguia falar o
suficiente. Depois de ouvir Deus, ele não conseguia falar nada.
O silêncio era a única resposta adequada. Houve um tempo na vida de
Thomas Kempis em que ele, também, cobriu sua boca. Ele havia escrito
muita coisa sobre o caráter de Deus. Mas, um dia, Deus o confrontou
com tamanha graça santa que, daquele momento em diante, todas as
palavras de Kempis “passaram a parecer palha”.Ele deixou de lado
a caneta e nunca mais escreveu outra linha. Ele pôs a mão sobre a
boca.
O termo usado para tais momentos é reverência.
Jesus
ensinou-nos
a
orar
com
reverência
ao
exemplificar
para
nós
o
“Santificado
seja
o
teu
nome”.
Essa
frase
é
uma
petição,
não
uma
declaração.
Um
pedido,
não
um
anúncio.
“Sê
santificado,
Senhor.
Faze
o
que
for
preciso
para
ser
santo
em
minha
vida.
Ocupa
o
teu
legítimo
lugar
no
trono.
Exalta-te.
Engrandece-te.
Glorifica-te.
Sê
Senhor,
e
eu
ficarei
em
silêncio.”
A
palavra
santificado vem
da
palavra
santo,
e
a
palavra
santo significa
“separar”.
A
origem
da
palavra
pode
ser
remontada
a
uma
palavra
antiga
que
significa
“cortar”.
Ser
santo,
então,
é
estar
acima
da
norma,
ser
superior,
ser
extraordinário.
O
Santo
habita
um
nível
diferente
daquele
em
que
o
restante
de
nós
vive.
O
que
nos
assusta
não
o
assusta.
O
que
nos
preocupa
não
o
preocupa.
Sou mais um apreciador da terra firme mais do que um marinheiro, mas
já andei de barco o suficiente pra saber qual é o segredo para
encontrar terra em meio a uma tempestade... Você não mira outro
barco; é claro que não fita as ondas; tem em perspectiva um objeto
não afetado pelo vento – uma luz na praia – e vai em direção a
ela. A luz não é afetada pela tempestade.
Ao buscar Deus, você faz o mesmo. Quando você tem em perspectiva o
nosso Deus, se concentra naquele que você qualquer tempestade que a
vida pode trazer.
Como Jó, você encontra paz na dor.
Como Jó, você cobre sua boca e fica quieto.
“Parem
de
lutar!
Saibam
que
eu
sou
Deus!”
(Salmos
46.10).
Esse
versículo
contém
um
mandamento
com
uma
promessa.
Qual
o
mandamento?
Parem de lutar.
Cubram a boca. Dobrem
os joelhos.
Qual
a
promessa?
Vocês saberão que eu
sou Deus. O
barco
da
fé
viaja
em
águas
tranquilas.
A
crença
anda
nas
asas
da
espera.
Em meio às suas tempestades diárias, e nesta tempestade que assolou
nosso país e até o mundo inteiro, faça questão de ficar quieto e
de ter Deus em perspectiva. Deixe que Deus seja Deus. Deixe que ele o
banhe em sua glória para que tanto seu fôlego com seus problemas
sejam absorvidos de sua alma. Fique quieto. Fique em silêncio.
Esteja aberto e disposto. Reserve um momento par ficar quieto e saber
que ele é Deus.
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